Palavra do mês Acolhida

ACOLHIDA: Fazer de nossos espaços lugares de escuta, favorecendo a cultura de valorização da vida e superação das desigualdades sociais.

 

A acolhida é uma prática humana registrada em todas as literaturas mundiais. Toda pessoa desde o seu nascimento tem necessidade de sentir-se acolhida. Os psicólogos afirmam, que essa necessidade já esta presente em todo o processo gestacional e perpassa toda a nossa existência. A ausência da acolhida do bebê, a sua rejeição e indiferença, deixam sequelas por vezes irreversíveis no processo de crescimento e na vida adulta.

A acolhida é uma forma de expressar a aceitação, o carinho e o interesse pelo outro. Contudo, nem sempre a acolhida segue os princípios de um relacionamento saudável, respeitoso e honesto. Muitas vezes ela traz a marca do interesse comercial, do marketing, da burocracia, da manipulação, etc, produzindo relações interpessoais frias e desumanizadoras.

Vivemos em um mundo globalizado que se caracteriza cada vez mais pelo individualismo, impessoalidade, ativismo, indiferença, massificação, anonimato. Neste contexto, a pessoa se torna um produto de mercado, de satisfação dos diversos desejos humanos, se torna descartável, perde sua face. Como dizia Marx é a absurda alienação e coisificação do homem.

Sabemos que juntos, coletivamente, construímos o mundo em que vivemos, mas também somos por ele construídos. A sociedade não é uma simples soma de pessoas e de grupos, e sim o resultado da interação que construímos com os outros. Nesse processo, diante de nós, ao nosso lado, esta sempre o “outro”. Conforme Emmanuel Levinas, filósofo que reflete sobre a alteridade, o outro não é um ser distante, estranho, um objeto qualquer, e sim um sujeito, é o universo dialogal, a existência da reciprocidade.

A acolhida exige que saibamos diferenciar o conhecer e o sentir, sendo que o conhecer é acentuadamente racional e o sentir, afetivo. O sentir insere a pessoa no mundo. Ao sentir um fenômeno o ser humano é atingido na sua intimidade, é tocado. Ao perder a sensibilidade, o ser humano se torna insensível, cruel, indiferente. É o que os gregos chamavam de ANAISTHESIA, anestesia, insensibilidade. Os insensíveis não acolhem, não se deixam tocar pelo sofrimento do outro, excluem o próximo. Diz Levinas, “a face do outro é o divino do homem”.

O outro me chama à sensibilidade, à responsabilidade, à solidariedade, à vida plena, à valorização do outro em sua originalidade, individualidade, unicidade. Neste processo de acolher o outro e sentirmo-nos acolhidos, vamos superando toda forma de egocentrismo, narcisismo, individualismo. O outro, portanto, nos dá a possibilidade de tornarmo-nos mais humanos, afetivos, menos artificiais e superficiais em nossa existência. Neste sentido, precisamos estar sempre atentos em relação ao uso que fazemos das novas tecnologias de comunicação. Todos reconhecemos os grandes avanços e benefícios da internet, redes sociais, novas mídias, etc. Contudo, não nos esqueçamos daqueles que não tem acesso ao universo midiático, os analfabetos tecnológicos. Não deixemos de privilegiar sempre o encontro pessoal com o outro, de ir ao encontro das pessoas, sobretudo as mais simples e humildes. Tenhamos sempre como paradigma para a acolhida que desejamos viver na Emaús a pessoa e os gestos de Jesus que acolhia a todos, sem nenhum preconceito e discriminação: pobres, excluídos, doentes, prostitutas, publicanos, pagãos, leprosos, endemoniados, mulheres, crianças, ladrões… Lembremo-nos sempre, o carisma Emaús é exatamente este de ser “presença viva do ressuscitado para todos àqueles que vivem uma vida “sem rumo” e “sem sentido”“. Somente assim, estaremos fazendo de nossos espaços lugares de escuta, favorecendo a cultura de valorização da vida e superação das desigualdades sociais.

Pe. Ademir Andrade de Sá

Questão para refletir:

Considerando a breve reflexão acima, como vocês podem concretamente tornar efetiva e mais afetiva a acolhida na unidade em que vocês trabalham no dia a dia?